sexta-feira, 15 de junho de 2007

Ela SEMPRE tem razão

Para Maitê

Ela conhece os meus olhares. Conhece o brilho e o pranto, o fixo e o vago. Não importa qual deles, ela conhece todos. E pensa que Ela não conhece a diferença entre um sorriso e o outro? Pois pergunte. Ela é a guardiã dos labirintos que me habitam. Ela cospe de volta chaves de portas que EU engoli e tranca meus portões contra invasores, mal-feitores...
Por tanto conhecer, eu já não causo mais surpresa alguma. Isso, em qualquer outra situação, eu chamaria de monotonia, mesmice; nesta, chamo de leitura sem legenda.
É por Ela que grande parte de mim é boa. São delas as mãos que me confortam, e são delas também as palavras sábias, mágicas que me salvam das beiras de abismos; dela eu aceito qualquer sussurro do qual possa entreler "tô aqui". Encorajadoras são as suas palavras de ordem, nobres são suas bandeiras; com elas eu vou além, porque vou invadida de amor, do Seu amor.
Se dou de cara com meu lado falho, feio, é Ela quem vem me dizer que todo mundo erra. Eu já sei disso, mas SEMPRE preciso que Ela diga. Ela me ensina a sentar resignada no banco do réu, mas me aponta onde fica saída; porque ela entende de perdão, e só acredito no que Ela me diz, porque, acima de tudo, Ela entende sobre verdade. Ela decifra meus códigos, índices, gráficos... pergunto-me como ela pode enxergar tão bem do lado de cá e ao mesmo tempo enxergar além. Sei lá que segredo é esse; Ela pode até dizer que não, mas é um pouco bruxa sim... Ela profetiza, filosofa, poetiza...meta-se com Ela!
Dá licença. Que me perdoem Nostradamus, Jesus Cristo e o 'escambau', mas é ELA quem sempre tem razão.

sábado, 9 de junho de 2007

Já que tô aqui...

Alguém me dê notícias de mim.
Daquela mim,
Que e
scorre pelos dedos alheios,
Que é furtada por frestas de bolsas,
Que está sob o asfalto da rua e sob tua coberta,
E aberta para bêbados e cães.

Encontrada.

domingo, 27 de maio de 2007

Chamam-me de original e não vêem que o que tenho é um enorme cansaço
E que sou toda enjôo de tanta influência de TV,
De tanto braço gasto em tanque, tanta coisa velha por fazer.
Vou dando ré e meu medo de até onde posso voltar
Me dá a ânsia que paralisa;
Aqui onde estou é o aglomerado de onde não posso estar
E me chamas de feliz...
Ora, não julgues meu riso segundo teus resmungos,
Nada sabes nem de saberás a meu respeito de fato
E achares que sabes tudo de ti e arredores é pecar.
Sigo rastros de silêncio já que da canção não faço parte;
Dispenso conversas inúteis,
Pessoas-enfeite,
Amores carentes.
Estou exausta desse mundo contextualizado,
Limitado, inventado
Por essas almas que inventam paixões por pena de si próprias.
Sou sem amor, mas diga-me:
O que é amor pra ti???
É como escolher uma roupa para vestir?
Que sirva, que combine, que identifique e não sufoque?
E é a mim que chamas de triste...
Triste é esse quadro que eu vejo,
Essas mentes doentes querendo me colocar
Em algum lugar na "tabela do certo & errado"
Porque não podem me ver assim, saltitando nas linhas...

quinta-feira, 17 de maio de 2007

" Um Sopro de Vida"

" O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever. Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim."

(Clarice Lispector)

Preguiça

Grandessíssima preguiça de escrever, ou será medo da nudez?
Não sei. Coisas se movem aqui dentro e o instante parece curto demais, vago demais e absurdamente veloz. Calo como se buscasse solução para a inquietação. Evito a análise, pareço não estar parecendo; chamo atenção. Não quero. Quero estar a sós e me permitir ficar atônita com tudo.
Deixa? Deixo. Deixo de lado as besteiras que pensava pensar. Seco tempestades. Talvez venha daí a preguiça. Do inundar-se para nada.
Para nada? Qual a distância entre o meu nada e o tudo do todo?
Ah, inquietações... É tudo tão simples. É noite.
A espera do ônibus, as conversas, o sono. Tudo isso é a noite. Eu existindo é a noite.
Ausência de porquês, de poréns. E tudo é simplesmente a noite trazendo com ela essa alma querendo conversa de bar a essa hora!

domingo, 6 de maio de 2007

Olhos abertos

Palavras que não são minhas, mas tomo-as como se fossem:

"Vendo os olhares desertos de tantas pessoas antigas
Tantas pessoas amigas querendo um cigarro e um carinho
Gente que puxa uma briga na estrada com os olhos brilhando
Precisa só de um abraço, bem forte, bem dado

E eu quero encontrar as pessoas
De mãos e de olhos abertos
Sem me preocupar com dinheiro e posição

Eu preciso encontrar as pessoas
Ficar de mãos dadas com elas
Conversar com a boca dos olhos e os olhos do coração."

"Olhos abertos" (Zé Rodrix/Guttenberg Guarabyra. Interpretação de Elis Regina)
Chuveiro quente,
Pensar vazio.
Andar por essa casa é como a espera na estação;
Viver essa vida é como estar empoeirada em uma estante;
Estar aqui, inteira, é uma traição,
Mas a quem estou traindo?
Eu quero cair fora dessa pele,
Dessa casa,
Desse cargo,
Desse espaço,
Dessa rua.
Que vão-se os anéis e os dedos,
Se novos tiver.
Quero todos os renascimentos,
Todos os recomeços
E não quero mais esse nome,
Essa casca.
Lê-me, tira-me dessa estante;
Leva-me para perto da desordem do que é vida.