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| Cortázar, As Portas do Céu. |
sexta-feira, 2 de maio de 2014
domingo, 9 de março de 2014
Foram dias a fio olhando fio a
fio do lençol verde do mar. Fui ao fundo e vi tudo em câmera lenta, os peixes e
as texturas pareciam uma alucinação, efeitos de alguma coisa. Um barulho doido.
Uma coisa que queimava. Uma coisa que queimava em pleno mar. Pensei em tudo que
também devia arder lá dentro, lá embaixo, v a g a r o s a m e n t e e que essa quantidade de contradições
harmoniosas e doidas, assim, em câmera lenta fazem o mundo girar.
Subo de volta e desaprendo tudo.
Com o olhar da pessoa impaciente que não podia esperar eu colocar a mala no
bagageiro do avião, uma questão de quinze segundos, no máximo; desaprendo com a
minha própria intolerância, com minha angústia. Eu emburreci de ontem pra cá. E
saí desfazendo a mala e lavando uma quantidade de roupas acima do que cabe no
meu varal. Além do tempo de sol que eu tinha. Além do que o vento poderia
secar.
Eu desaprendi de ser peixe e de
ser pescador no mesmo instante. Não sei mais nadar e fugir, não sei mais me alimentar
com o que tenho. E estou aqui apavorada com e-mails. Apavorada com datas. Apavorada
com meus atrasos, com minhas ausências em tudo. E tô aqui pensando que preciso
de mais tempo, que preciso de mais olhos, mais braços, mais cabeças, mais
pernas, mais ócio.
Sair fora é um processo lento. Demora
dias. Demora viagens de avião e engarrafamentos. Demora dias em casa/cama estranha, demora um
cansaço que seja maior que o que pesa na cabeça. Demora uma pele frita de sol. Pode
demorar um mergulho. Parece-se muito com um mergulho. Injusto que o retorno
seja em tão poucos segundos. Como um salto sem asas pra dentro da realidade.
E me repito: um dia de cada vez,
um medo de cada vez, um leão de cada vez. Os livros dirão, a terapeuta dirá, os
amigos dirão, pela mão de um orixá ou numa dose de uma bebida qualquer eu vou
chegar à mesma conclusão: uma coisa de cada vez. Não se caminha com os dois pés
pisando juntos. Não se pode ouvir e falar ao mesmo tempo. Então preciso
sossegar. Preciso entender os processos, preciso conseguir respirar
p a u s a d
a m e n t e. Deixar o leite derramar pra então chorar
sobre o fogão sujo. Alguma ordem na cabeça, uma ideia boba, alguma coisa
assim.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
ao pai
És meu pai nas entradas de uma testa grande,
Nas canelas brancas e nas mãos gigantes,
És meu pai na birra e na gengiva que se mostra inteira
rindo,
Na parecência com minha mãe – tuas escolhas.
És meu pai da fome e da comida em exagero,
Da minha sempre magra presença - aos teus olhos.
És meu pai nos homens que me amam, que me precisam, que me
torturam,
És meu pai em cada vez que escrevo coisas longas demais,
Em cada rasgação de seda e nos pés pelas mãos.
És meu pai na vontade de servir e na vontade de
dormir,
Pai da pequena que precisou te enxergar
Pra conseguir ler o
discurso de 'formatura', aos seis anos.
E pai da mulher de quase trinta que precisa sumir de ti pela paz mundial.
És pai na maior das minhas paciências
Em esperar que tu conserte
alguma coisa que eu jogaria fora
E meu pai no exagero de coisas que eu guardo
És meu pai e te reconheço
Nisso que há de mais feminino em mim:
Minha loucura.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Carta a Vinicius de Moraes
É a segunda vez, Vinicius, que acordo nesse assombro de ter esquecido teu aniversário. A primeira foi em fevereiro e, de tanto medo, fiz um lembrete. Hoje, dia 15 do mês certo, acordei tristonha, acho que sonhei contigo e, de novo, achei que já tinha passado. Imagino que não te importes muito com aniversários a essa altura e, se te importasses, farias uma festa e eu ouviria daqui. Eu te diria tantas coisas, fosse hoje teu aniversário, Vinicius. Diria tantas coisas, se pudesse. Diria que amo e odeio todos os homens que, de certa forma se parecem contigo. E te diria que te amo, mas estarias bêbado e ririas de mim, me mandando beber e rir também, porque sou louca. Te diria que aprendi de amor contigo, o bom, o ruim, o errado, não tendo agora para quem reclamar. Tenho tentado beber uísque, sonhando beber contigo. Seria um desrespeito dividi-lo com qualquer outro homem que fosse, como dividir minha poesia também seria. Então me calo.
Há tanto em mim que eu queria te contar, Vinicius e tanto nesse mundo
que jamais te contaria, já que não vistes, melhor assim. Mas te
contaria da minha luta contra as gravatas - que, para as mulheres,
vieram ao mundo em forma de salto alto. Te pediria ajuda para falar
melhor em público e, de novo, me mandarias beber e rir. E rir e beber e
continuar. Te obedeço sem me mandares.
Não te faria nenhuma pergunta quase, Vinicius. Não sairia de perto
de ti, fosse hoje teu aniversário. Não deixaria teu copo vazio, nem a
cinza cair acidentada sobre tuas calças. Te riscaria um fósforo para
assoprares como vela. Seria alegre ao teu lado, se te pudesse bater nas
costas e dizer "parabéns", "obrigada". Te abraçaria com a saudade de
quem te via todos os dias, de quem te dava um "amor prestante". Mas ainda não é teu aniversário, sofro esse vazio antecipado.
Mas te escrevo, poeta. Espero que leias e que daí de longe me
respondas, como um santo que atende uma prece. E que me remetas de volta qualquer
coisa semelhante a poesia, qualquer coisa perto de amor.
sábado, 22 de junho de 2013
papo de doido
As verdades empurram as mentiras e as esgoelam pra que parem.
A imaginação, que é muito safa, entra descalça na sala e defende por horas que não é hora de fugir:
- A cama é elástica, o pé direito é alto e se a cabeça bate, cairás bêbada e risonha dessa alegria idiota que é ser livre.
A imaginação, que é muito safa, entra descalça na sala e defende por horas que não é hora de fugir:
- A cama é elástica, o pé direito é alto e se a cabeça bate, cairás bêbada e risonha dessa alegria idiota que é ser livre.
Tão pesado já é o fardo
De estar sã
Não me peçam agora
Que fique sóbria
Que me desfaça das barreiras
Que criei contra o mundo
Que eu prefira os ruídos
Viciados e viciantes
Da cidade
Ao invés de uma música qualquer
Não me peçam
Que eu exponha
Esse lugar dentro de mim
Onde escondo meus repúdios
Esse lugar não será visto
Nos meus olhos
- eternos fugitivos -
Nem por minhas palavras
Nem pelo meu gesto de ausência
Se há complicação bastante
Na minha escrita
E isso não parece meu
Não ligo
Na verdade
Eu também me engano
Quando me descomplico pra viver.
De estar sã
Não me peçam agora
Que fique sóbria
Que me desfaça das barreiras
Que criei contra o mundo
Que eu prefira os ruídos
Viciados e viciantes
Da cidade
Ao invés de uma música qualquer
Não me peçam
Que eu exponha
Esse lugar dentro de mim
Onde escondo meus repúdios
Esse lugar não será visto
Nos meus olhos
- eternos fugitivos -
Nem por minhas palavras
Nem pelo meu gesto de ausência
Se há complicação bastante
Na minha escrita
E isso não parece meu
Não ligo
Na verdade
Eu também me engano
Quando me descomplico pra viver.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
SONHO
Espio pela fresta da porta antes de entrar
Tento não fazer estragos
Tento achar a luz, antes que ela me cegue
Ouço barulhos que estão dentro de mim
Nas gavetas internas
Gente andando
Um aviso que diz "fuja!"
Passo os obstáculos
E o que derrubo, cai de mim
Quase enxergo, mas não chego
As paredes que toco são grades
E o que misturo com as mãos
Me constitui.
Não tenho medo de nada,
Não rejeito
Esse sentimento que é de entrar-sair
Esse sentimento que é tocar a cegueira
Tudo isso sao alucinações possíveis,
São passos,
São meus limites noturnos.
Tento não fazer estragos
Tento achar a luz, antes que ela me cegue
Ouço barulhos que estão dentro de mim
Nas gavetas internas
Gente andando
Um aviso que diz "fuja!"
Passo os obstáculos
E o que derrubo, cai de mim
Quase enxergo, mas não chego
As paredes que toco são grades
E o que misturo com as mãos
Me constitui.
Não tenho medo de nada,
Não rejeito
Esse sentimento que é de entrar-sair
Esse sentimento que é tocar a cegueira
Tudo isso sao alucinações possíveis,
São passos,
São meus limites noturnos.
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