terça-feira, 16 de setembro de 2008

FRACASSO INFALÍVEL


Abra sua porta e entregue primeiro seu corpo ao descaso do mundo, abandone-se.
Meio caminho andado.
Em seguida, atire seus sonhos um a um ao vento e sinta-os sair de suas mãos.
Sinta medo, seus maiores medos. Encha-se deles e deixe-se vencer.
Não lute, afinal, o que é nossa dor para o restante do mundo?
Gritamos em uma sala vazia, onde os gritos ecoam e tornam-se insuportavelmente altos
Apenas para nós.
Resmungue apenas.
Não satisfeito com a dor, ainda precisa que o lembrem como aquele que não soube viver o mundo?
Contente-se, contenha-se.
Pois o que é a vida senão a segurança das coisas efêmeras, construídas, impregnadas à perecível matéria?
Morra, dia após dia. Vivo mesmo.
E renascendo, torne a morrer porque a vida é breve mesmo como essa brisa que seca as roupas no varal.
Compareça ao seu velório, se possível. Apresente-se à amiga Morte e veja-se por entre flores, velando seu corpo.
Mas não chore, não minta...
Não queira mais a si mesmo; jogue-se fora.
Depois, junte-se e dê-se de presente ao seu maior inimigo
Para que ele jamais tenha paz de você.
Entregue-se a um amor fracassado,
Desapareça em meio à sua sombra,
Respire dele o mais fundo que puder;
Iluda-se.
Escreva em linhas tortas e letras feias
A sua história mais vergonhosa,
Engasgue-se com seu veneno
Com o fogo inda não cuspido,
Com o escrárnio inda não dido.
Prostitua teu coração ali na esquina
Dê ou venda-o, já que lhe pertence
E fede e arde das paixões que matas e guardas.

Atire-se do abismo mais alto e deixe seu peito - aberto - ir rasgando-se inteiro.
Caia
E não se levante até o coice derradeiro.

[velharia: eu ainda era menor de idade quando escrevi]

domingo, 14 de setembro de 2008

"Se por acaso eu morrer do coração
É sinal que amei demais
Mas enquanto estou viva
Cheia de graça
Talvez ainda faça
Um monte de gente feliz."

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Caio Fernando de Abreu

"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

deserto

É natural que, de repente, eu tenha esquecido o que procurava?
E se perdi alguma coisa no caminho que não me faz falta?
Um eco, um vento,
Uma febre imbecil.

Deveria voltar pra buscar???
.
.
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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Clandestina

Neste caso, me detenho a ficar mesmo na versão não-autorizada...
Alguém disse, ninguém viu, quase todo mundo duvida.
Deixo ao acaso um novo encaixe, uma volta à beira;
Deixo em teus ouvidos novas palavras,
Devolva-me as velhas,
Deixe-me para trás.
E não me faça perguntas,
Não é à toa que me calo;
Eu quero o alívio de ser tola,
Um novo olhar, um mundo estranho,
Descobrir verdade qualquer desnecessária
E não ter quase medo algum.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

uNpLuGgEd

Eu bloqueio,
Tu bloqueias
Todos bloqueiam
Coisas aqui, acolá,
De um jeito ou outro
No limpo, no sujo.
O mundo todo está online
E eu sem a menor vontade de estar
Não quero café
Não quero boteco
Não quero champagne, meu bem.
Tô sem tempo pra você.
Tô tentando falar baixo,
Tô tentando lentos passos.
Não me perceba,
Não me julgue,
Eu não te odeio,
Eu nem odeio,
Porque nem sei.

Me deixa cá, me dê um tempo...
Quero comida boa,
Caminha quente
E nada de gente!

domingo, 3 de agosto de 2008

Retribuo bonitas palavras com todo meu rancor
Rancor por coisas que não te pertencem
Velha lei da compensação:
Abaixo ao prejuízo...alguém tem que pagar por isso!
Me deste asas de borboletas multicores
E te devolvo um pouso baixo, medroso
E a fácil captura que só a covardia permitiria...
É que o mundo é repugnante às vezes
E os desejos irritantes que nos habitam,
Acredite em mim, passam.
E há um milhão de outras opções
Sem que ninguém precise enlouquecer.

E é preciso tempo demais até que
Algum entendimento seja possível;
Criam-se rugas, as paredes mudam de cor,
Mas continuamos jovens e as roupas ainda nos servem
E eu até penso em mudar lá pelas tantas
Dividir o vinho, quem sabe...?
Um bom começo!
E só a vida que me deixa assim exausta...
Não me preocupo tanto assim.