quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Saí da sessão de terapia vazando. Nunca dá tempo o bastante pra lavar, torcer e secar as mágoas.
Vim tentando juntar umas coisas e colocar no bolso pra ver outra hora, mas, não tendo bolso, fui colocando goela abaixo mesmo, daí atravessou.
Temos um problema: eu não sei cadê a verdade, eu acho que minto em juízo às vezes.
Ela me diz que é complicado, que só acuso a mim mesma, que me enfio o dedo na cara, me abraço com os pregos e beatifico os culpados.
Me canso antes de tentar revidar e fico com raiva depois, perdi o momento, perdi as palavras, perdi o caminho.

Muito bem, mas pra que ficar assim, engasgada...?
Não sei, só queria me render a essa vontade de ir pra casa, pintar as unhas e chorar.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sou pequena. E falo de dentro do estômago de um mundo que já me engoliu.

"A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias
(do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios."

Manoel de Barros

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

insistências

De todas as qualidades que me faltam para ser [digo, ter sido] uma jornalista a maior delas é o dom de saber insistir.
Para fincar pé com alguma coisa preciso antes, insistir, insistir, insistir comigo.

Dá para imaginar meu cansaço?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

FELIZ ANIVERSÁRIO, DRUMMOND

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

QUE O AMOR HÁ DE SER DESCOBERTO

Estudando barroco, a gente não encontra só sermão, sátira e ouro. A gente também encontra essas coisas bonitas aqui, ó:

Se brilha um fogo luzido,
(O mesmo no Amor é certo)
Arder não pode encoberto,
Luzir não pode escondido.

Se é raio Amor, rompa o medo,
Quando os sentidos inflama,
Patenteie a luz da chama,
Rasgue a nuvem do segredo.

Se quando a beleza adora,
Qual harmonia se estuda;
Nunca a harmonia foi muda,
Sempre a harmonia é sonora.

Atreva-se o Amor constante
A publicar o que sente;
Não desmaie, se é valente,
Não se encolha, se é gigante.

Se brilha qual perla, ou rosa,
Nunca estimações ordena,
No botão a rosa amena,
Na concha a perla fermosa.

Cupido n'afeição louca
Este intento há persuadido;
Os olhos cerra Cupido,
Não cerra Cupido a boca.

Se Amor de ave tem a empresa,
Quando o encerra algum desprezo
Por violência vive preso,
Porém não por natureza.

Quando Amor se mostra, é certo
Que, como se vê despido,
Não se encobre Amor vestido,
Mostra-se Amor descoberto.

Anarda pois, no Amor ledo,
Por mais que silêncios gozes,
Se o cala o medo das vozes,
Dizem-no as vozes do medo.

Manuel Botelho de Oliveira

*primeiro autor nascido no Brasil a ter um livro publicado.






quarta-feira, 6 de julho de 2011

"pro seu santo não era um qualquer um"

Os dias são assim, tio, passou um mês e a notícia só vai ficando mais velha. E talvez por não ter acreditado muito bem ainda, demorei tanto pra escrever. O jornal apaga, esquecemos um pouco o medo, o rancor, a tristeza e pensamos em ti, nesse triste fim.

O Inter estava jogando (e ganhando) ... o nosso colorado! Enquanto alguém - "por engano, vingança ou cortesia" - te avariava o corpo no meio da rua.

Eu não queria que fosse assim, tio. Teu irmão ter te visto daquele jeito, contrariando o herói sempre, sempre, sempre irresponsável que foste... tua mãe perguntando “o que tinham te feito? Como te pegaram assim?” E ninguém sabia explicar.

Não foste santo, é o que lembramos junto com a saudade. Das tuas piadas infames, das sem-vergonhices imensas. Talvez a gente tenha o fim que mereça nessa vida e nossos pais jamais vão concordar com isso, com a forma que escolhemos viver nossa vida. Tudo vira drama antes mesmo de ser. Gastaste sapatos, correste o mundo e viveste numa velocidade para loucos. Te orgulhavas de dizer que “parou quando quis” e não deu tempo de te perguntar por que não quiseste mais parar.

Só sei/sabemos que te enterrar foi – antes de tudo – uma decepção para todos nós. Tu escapavas de todas, não tinha Cristo, mãe ou médico que te parasse. Tua mãe não merecia, saber da tua morte daquele jeito. Quem ia fazê-la acreditar? Só podia ser mesmo mentira.

E ficam as tuas risadas, ficam teus poucos ensinamentos (“quem pra cima cospe...”) e é difícil não pensar que antes de TANTAS coisas, me carregavas pequena sobre os ombros e, do alto, dos teus 1,94m o mundo era TÃO GRANDE; que me mostravas açudes, galinhas, Cazuza, Rita Lee; que me deste meu primeiro som com CD e ursinhos de máquina; que ensinavas como um mantra que a única rádio que prestava era a Ipanema, porque era Rock; e que me dizias que eu tinha o teu jeito de se vestir quando era novo, sempre de preto.

E que aparecias lá em casa pra almoçar com uma namorada nova a cada final de semana e, por isso, então, deixaste umas quatro viúvas... entre ex-mulher, ex-amante, ex-ficante. Incluindo uma que te tatuou “amor eterno” nas costas, nomeado e tudo. Pobres moças...

Ai, tio, se essas alegrias pelo menos te segurassem, mas nem isso.

É a vida.

E devemos lembrar das coisas boas, não da dor e de ‘como poderia ter sido’. A vida é assim, errada, doida.

Te escrevo e te desejo paz. Vê se sossega um pouco, que a gente aqui vai levando e cuidando um do outro. Meio no tranco, meio na marra, um passo por vez.



E como Onze Fitas ( Interpr.: Elis Regina/Comp.: Fátima Guedes ) é triste demais (e a verdade nunca rima mesmo), hoje, vou te dedicar esse sambinha da Nara Leão:

Malvadeza Durão

Composição: Zé Keti

Mais um malandro fechou o paletó
Eu tive dó, eu tive dó
Quatro velas acesas em cima de uma mesa

E uma subscrição para ser enterrado
Morreu Malvadeza Durão
Valente, mas muito considerado

Céu estrelado, lua prateada
Muitos sambas, grandes batucadas
O morro estava em festa quando alguém caiu

Com a mão no coração, sorriu
Morreu Malvadeza Durão
E o criminoso ninguém viu.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

meu jeito de (re)partir

Não saberia verbalizar a não ser assim. Porque a coisa é toda assim.

ADEUS VOCÊ

(Marcelo Camelo)

Adeus você
Eu hoje vou pro lado de lá
Eu tô levando tudo de mim
Que é pra não ter razão pra chorar
Vê se te alimenta
E não pensa que eu fui por não te amar

Cuida do teu
Pra que ninguém te jogue no chão
Procure dividir-se em alguém
Procure-me em qualquer confusão
Levanta e te sustenta
E não pensa que eu fui por não te amar

Quero ver você maior, meu bem
Pra que minha vida siga adiante

Adeus você
Não venha mais me negacear
Teu choro não me faz desistir
Teu riso não me faz reclinar
Acalma essa tormenta
E se agüenta, que eu vou pro meu lugar

É bom...
Às vezes se perder
Sem ter porque
Sem ter razão
É um dom...
Saber envaidecer
Por si
Saber mudar de tom

Quero não saber de cor, também
Pra que minha vida siga adiante