supondo que há milhares de dias nesse outono,
supondo que serão dezenas de chegadas e outras dezenas de partidas,
supondo que sim ou não são relativos e que num dia qualquer de chuva ou de frio
o assunto será silêncio.
um cigarro. um vinho. uma mesa, nem isso: companhias.
enquanto não chegas.
enquanto o que tenho, não [me] chega.
papel, caneta: defesas.
penso que me esperas, recostado. um sorriso de lado.
e supondo as milhares de outras noites que virão,
eu digo não.
segunda-feira, 29 de março de 2010
sábado, 27 de março de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
Cortázar
"(...) Não por ela, mas por tudo que pudesse sentir. Não se importava muito com o que ela pudesse sentir, desde que disfarçasse. (Não se importava muito com o que ela pudesse sentir, desde que disfarçasse?) Não, não se importava muito. (Não se importava?) Mas a primeira verdade, supondo que houvesse outras por trás, a verdade mais imediata por assim dizer, era que se importava com a cara que Laura faria, com a atitude de Laura. E se importava consigo mesmo, é claro, pelo efeito que provocaria nele a forma como Laura se importaria (...)"
(CORTÁZAR, Julio. As Armas Secretas)
(CORTÁZAR, Julio. As Armas Secretas)
domingo, 24 de janeiro de 2010
quando tudo esvazia e mesmo assim parece cheio
Eu não quero falar das dores do mundo,
Dos calos, dos cales, dos fales que tanto me enervam.
Não quero falar de silêncio,
De parênteses,
De porquês, de poréns...
Não quero falar do meu mundo,
De meus medos
E de tudo que não dou conta.
Nem quero falar de poderes, de quereres
E de afins.
Eu só quero falar das cores
Das imagens recortadas,
Do que eu vejo, do que eu capto
Do que me rasga,
Me invade,
Me atropela.
domingo, 25 de outubro de 2009
as horas
"o tempo que temos, se estamos atentos, será sempre exato" Caio Fernando de Abreu.
Fico me perguntando em que momento a gente se distrai com alguma coisa que acontece, com a novela passando, com as conversas cruzadas...em que momento me deixo escapar de mim mesma e esqueço a que vim.
Ou não esqueça. Talvez não tenha vindo para isso, não. Talvez tenha vindo de teimosa e de mais teimosa tenha ficado aqui, sem lembrar todas as perguntas que queria fazer nem todas as teorias, nem todas as acusações. Porque enfim, lá pelas tantas da noite todo mundo é igual. E já não nos importa saber dos pecados, quando foram e por que.
É engraçado como nos distraímos e ficamos à vontade, tão à vontade para ficar em silêncio e para caminhar bêbados e ridículos e juntos e deitar a cabeça no ombro como se estivesse em casa.
E eu acho que mesmo as horas se distraíram e saíram para dançar na chuva enquanto nos esperavam.
Mas voltaram e nada feito. Guardei-as na bolsa e as trouxe pra casa comigo, tontas de tanto dançar.
Agora me diga, o que faço com elas?
Fico me perguntando em que momento a gente se distrai com alguma coisa que acontece, com a novela passando, com as conversas cruzadas...em que momento me deixo escapar de mim mesma e esqueço a que vim.
Ou não esqueça. Talvez não tenha vindo para isso, não. Talvez tenha vindo de teimosa e de mais teimosa tenha ficado aqui, sem lembrar todas as perguntas que queria fazer nem todas as teorias, nem todas as acusações. Porque enfim, lá pelas tantas da noite todo mundo é igual. E já não nos importa saber dos pecados, quando foram e por que.
É engraçado como nos distraímos e ficamos à vontade, tão à vontade para ficar em silêncio e para caminhar bêbados e ridículos e juntos e deitar a cabeça no ombro como se estivesse em casa.
E eu acho que mesmo as horas se distraíram e saíram para dançar na chuva enquanto nos esperavam.
Mas voltaram e nada feito. Guardei-as na bolsa e as trouxe pra casa comigo, tontas de tanto dançar.
Agora me diga, o que faço com elas?
terça-feira, 13 de outubro de 2009
outras angústias
Ela enroscou suas pernas em mim como se quisesse me imobilizar, me proteger de mim. Eu tinha os olhos vidrados na noite que me era ofertada por uma fresta da cortina. Ela dormia. Não importa quantas vezes eu olhasse, ela dormia. E aquele céu me dava a sensação de que qualquer coisa feita sob ele poderia ser perdoada, mas esse consolo não me satisfez.
Ela era leve, por isso dormira. Por isso seu rosto sereno, por isso sua cabeça estava quieta. Nenhum pecado, nenhuma culpa, nenhum remorso. Enquanto eu, entontecido de dúvidas, permanecia acordado, esperando que num súbito, ela se desenrolasse de mim e me deixasse ir embora como deveria ser.
E assim fiquei. Ela não se mexia, parecia pressentir minha fuga como uma mãe que não precisa espreitar a porta, conhece todos os ruídos, todos os cheiros e sabe sempre que horas são.
Ela mal respirava, eu poderia lhe dar como morta e eu tinha medo de mexer no cadáver. Medo não. Medo foi o que eu tive de dizer que tive vergonha, de dizer que fui um covarde.
Que tive pavor de dizer a ela que ia embora, por todos os motivos.
Adormeci por um instante e acordei num susto. Ela me fitava, sorrindo com os olhos. Parecia tão acordada que pude pensar que nem chegou a adormecer. Talvez minha angústia não fosse tão silenciosa, ela parecia ter me ouvido. Sabia de tudo e me queria ali. Fechei meus olhos, abri. Suas pernas já não enredavam mais as minhas, eu senti. E a puxei com força, contra mim.
E nessa via de mão dupla, eu - que sequer pude me levantar - tive medo de que ela fugisse em meu lugar.
Ela era leve, por isso dormira. Por isso seu rosto sereno, por isso sua cabeça estava quieta. Nenhum pecado, nenhuma culpa, nenhum remorso. Enquanto eu, entontecido de dúvidas, permanecia acordado, esperando que num súbito, ela se desenrolasse de mim e me deixasse ir embora como deveria ser.
E assim fiquei. Ela não se mexia, parecia pressentir minha fuga como uma mãe que não precisa espreitar a porta, conhece todos os ruídos, todos os cheiros e sabe sempre que horas são.
Ela mal respirava, eu poderia lhe dar como morta e eu tinha medo de mexer no cadáver. Medo não. Medo foi o que eu tive de dizer que tive vergonha, de dizer que fui um covarde.
Que tive pavor de dizer a ela que ia embora, por todos os motivos.
Adormeci por um instante e acordei num susto. Ela me fitava, sorrindo com os olhos. Parecia tão acordada que pude pensar que nem chegou a adormecer. Talvez minha angústia não fosse tão silenciosa, ela parecia ter me ouvido. Sabia de tudo e me queria ali. Fechei meus olhos, abri. Suas pernas já não enredavam mais as minhas, eu senti. E a puxei com força, contra mim.
E nessa via de mão dupla, eu - que sequer pude me levantar - tive medo de que ela fugisse em meu lugar.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
É. Talvez ele ainda quisesse contar com a presença dela. A idéia de tê-la ali era como o segundo lugar no podium de chegada: melhor do que nada.
Talvez ele ainda se perguntasse onde ela enfiou todo aquele amor aflito, briguento e aonde foram passear suas pernas desesperadas. Em que peito repousava sua mão e quantas vezes na semana. Não podia supor.
O certo é que ele tinha alguma gratidão por ela. Ele precisava do drama, dificultava tudo, tropeçava no liso e ela cumpria como ninguém o seu papel naquele misto de novela mexicana e terapia de casal. Ela dançava conforme a música, chorava por encomenda para fazê-lo sentir vivo.
Ele sabe que ela sempre o entendeu, mas ele precisa de sombra e ela o perturba. Ela é uma janela aberta, luz demais.
Ele mandaria colocar nuvens no céu, se preciso fosse, a alegria azul não lhe caía bem, era preciso nublar, mover, chover...
Ele não sabia o que ela esperava, nem sabia porque ela ficava e porque dormia e porque acordava e porque às quatro da manhã ele ainda estava dentro dela, mas tudo bem, ela não o mandava sair, nunca mandaria. Ele tinha um metro e muito de um corpo que gostava ali todo para ele e negar não era o seu forte.
E assim ele exercia aquele papel de romeu de mentira, desgarrado, sem vontade e sem nenhum amor para dar.
Ele não sabia o que havia ali, claro que não. Estava na superfície e nadou de volta para a beira. Da orla, ele a assistia se afogar, se afogar...com um espanto quase infantil.
Talvez ele ainda se perguntasse onde ela enfiou todo aquele amor aflito, briguento e aonde foram passear suas pernas desesperadas. Em que peito repousava sua mão e quantas vezes na semana. Não podia supor.
O certo é que ele tinha alguma gratidão por ela. Ele precisava do drama, dificultava tudo, tropeçava no liso e ela cumpria como ninguém o seu papel naquele misto de novela mexicana e terapia de casal. Ela dançava conforme a música, chorava por encomenda para fazê-lo sentir vivo.
Ele sabe que ela sempre o entendeu, mas ele precisa de sombra e ela o perturba. Ela é uma janela aberta, luz demais.
Ele mandaria colocar nuvens no céu, se preciso fosse, a alegria azul não lhe caía bem, era preciso nublar, mover, chover...
Ele não sabia o que ela esperava, nem sabia porque ela ficava e porque dormia e porque acordava e porque às quatro da manhã ele ainda estava dentro dela, mas tudo bem, ela não o mandava sair, nunca mandaria. Ele tinha um metro e muito de um corpo que gostava ali todo para ele e negar não era o seu forte.
E assim ele exercia aquele papel de romeu de mentira, desgarrado, sem vontade e sem nenhum amor para dar.
Ele não sabia o que havia ali, claro que não. Estava na superfície e nadou de volta para a beira. Da orla, ele a assistia se afogar, se afogar...com um espanto quase infantil.
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