domingo, 6 de julho de 2008

OUTRAS HISTÓRIAS

A história que fica suspensa entre o que aconteceu e o que poderia ter sido,
Do que é indefinido, inacabado ou que é desfeito.
A história de quando se perde o fio da meada,
A rima, o traço, o passo,
De quando se perde a compostura.
A história de quando já não temos mais lugar dentro da normalidade,
Dentro do que o sofrer permite.
Essa história que fica pelos ares, querendo ser contada,
Que quer ser apagada ou recomeçada
Como uma forma de certeza, quem sabe.
A história que é feita de pedaços de fatos,
De cortes de falas,
De pares de versos
Onde ela própria jamais caberá...

Essa história vai se esvaindo,
Não como mágica, como encanto.
Ela vai simplesmente se cansando
E já não quer ser contada de novo,
Vivida de novo.
Ela não quer, simplesmente não quer...
Caber dentro de outra história,
Dar passo para outro caminho
Que terminar em sua estrada.
Ela não quer, simplesmente não quer...

E tudo que é dor, que é rancor
Ou mesmo brilho que seja dela,
Que fique nela e somente nela...
Que não fuja por entre frestas de portas,
Por entre soluços.
Que fique ali no seu lugar, como em uma vitrine:
Ao alcance dos olhos mas impedida de entrar em outras histórias.

(escrito em fevereiro de 2007 e eu faço minhas as minhas próprias palavras, sem tirar nem pôr)

sábado, 24 de maio de 2008

"Mentira também é uma verdade, só que sonsa e meio nervosa. Minta quem puder, e com paz de espírito. Porque a verdade exige longa escadaria a subir como se eu fosse uma condenada a nunca parar. Estou cansada e é por isso também que falo baixo - é para não me ofender."

(LISPECTOR, Clarice)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

deselegante à beça

nada legal ser uma pessoa-vidro,
porque além de quebrar, posso ferir gravemente.

mas antes matéria do que forma,
prefiro o necessário ao belo de ser dito
e, na ponta dos pés, atravesso essa linha
que divide a verdade
da minha total falta de delicadeza.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Deselegante

Não desvia teus olhos dos meus,
Tonteio.
Não desencaixa teu corpo do meu,
Destoa.
Do ambiente todo, dos ares pálidos.

Não me desencante no silêncio,
Que já me finca tua pura liberdade.
Não me cala o coração,
Que eu desafino.
Tino já não tenho
E a tua lucidez me afronta,
Me despe.

Não te rias das palavras
Que te dou.
Nem das vitrais emoções d0 clarão
Que trago no rosto.

Escondo num sorriso inseguro
Que meu calcanhar de aquiles é teu gosto.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

No caminho para o quarto

Calei-te a boca mentirosa
Com um beijo de verdades;
Mandaste que eu escrevesse
Sobre aquilo em que não creio
E me pergunto:
Por que tiraria minhas honrarias
De franqueza
Escrevendo sobre tuas mentirosas frases?

Seria eu mais uma "poeta-fingidor"
Ou será verdade o que tua boca me segreda?

segunda-feira, 24 de março de 2008

Português IV

Deixa a vida ser assim descompassada
Não me canse os tímpanos nem as artérias
Deixa-me cá com meus movimentos marcias
E pensamentos marcianos
Sobre a morte do que não tenho.
Deixa o mundo e o Sol lá fora
Ser um problema de outro Deus
Ao qual eu eventualmente também possa pertencer
Por segurança
Deixa eu ligar o mute pras vozes internas
Para os cansaços alheios
E para os problemas de marca maior
Por hora
Que em troca, deixo meu coração aberto feito alvo
E pronto [de novo] para ser Senhor absoluto de tudo
Com um Grand Finalle, de Abre-Alas
Olha: faço algum sentido de trás pra diante!

Brigas já não me importam
O tempo já não me basta
E esse retro-projetor aí na frente me dá um sono...