terça-feira, 13 de outubro de 2009

outras angústias

Ela enroscou suas pernas em mim como se quisesse me imobilizar, me proteger de mim. Eu tinha os olhos vidrados na noite que me era ofertada por uma fresta da cortina. Ela dormia. Não importa quantas vezes eu olhasse, ela dormia. E aquele céu me dava a sensação de que qualquer coisa feita sob ele poderia ser perdoada, mas esse consolo não me satisfez.
Ela era leve, por isso dormira. Por isso seu rosto sereno, por isso sua cabeça estava quieta. Nenhum pecado, nenhuma culpa, nenhum remorso. Enquanto eu, entontecido de dúvidas, permanecia acordado, esperando que num súbito, ela se desenrolasse de mim e me deixasse ir embora como deveria ser.
E assim fiquei. Ela não se mexia, parecia pressentir minha fuga como uma mãe que não precisa espreitar a porta, conhece todos os ruídos, todos os cheiros e sabe sempre que horas são.
Ela mal respirava, eu poderia lhe dar como morta e eu tinha medo de mexer no cadáver. Medo não. Medo foi o que eu tive de dizer que tive vergonha, de dizer que fui um covarde.
Que tive pavor de dizer a ela que ia embora, por todos os motivos.

Adormeci por um instante e acordei num susto. Ela me fitava, sorrindo com os olhos. Parecia tão acordada que pude pensar que nem chegou a adormecer. Talvez minha angústia não fosse tão silenciosa, ela parecia ter me ouvido. Sabia de tudo e me queria ali. Fechei meus olhos, abri. Suas pernas já não enredavam mais as minhas, eu senti. E a puxei com força, contra mim.
E nessa via de mão dupla, eu - que sequer pude me levantar - tive medo de que ela fugisse em meu lugar.

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